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Lucro no relatório e caixa vazio: como calcular o seu runway

A empresa fechou o mês no lucro e cinco dias depois o dono pediu emprestado para pagar a folha. Os dois números estavam certos.

Por Raquel Mateus · Atualizado em 2026-08-30

A empresa fechou o mês no lucro. Cinco dias depois, o dono precisou pedir dinheiro emprestado para pagar a folha.

Os dois números estavam certos. O relatório não mentiu e o extrato também não. O problema era acreditar que lucro significa dinheiro disponível, e tomar decisões importantes olhando para o indicador errado.

Duas perguntas diferentes

Antes de qualquer coisa, vale separar o que cada instrumento responde.

O resultado responde: a operação dá lucro? O caixa responde: eu consigo pagar o mês que vem?

São perguntas distintas, e uma pode estar respondida de forma ótima enquanto a outra está em situação crítica.

O que o EBITDA mostra e o que ele esconde

EBITDA é o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Ele é um bom indicador: mostra se a operação, em si, gera resultado, sem o ruído da estrutura de capital e das regras contábeis.

O que ele não mostra é dinheiro disponível. E existem três motivos bem concretos para isso:

O que acontece O efeito
Nota fiscal emitida vira receita hoje, mesmo que o cliente pague em 60 dias
Parcela de empréstimo sai do caixa e não passa pelo EBITDA (juros e principal ficam de fora)
Estoque comprado é dinheiro que saiu agora, mas vira despesa só quando vender

Some a isso o imposto, que também fica fora da conta e sai na data certa, e você tem a explicação inteira do caso do começo. A operação estava saudável. O calendário do dinheiro é que não estava.

Por que isso é tão comum em PME

Empresa grande tem tesouraria e projeção de fluxo. Empresa pequena costuma ter o extrato e a intuição do dono.

E existe um agravante: quanto mais a empresa cresce, mais o caixa aperta, se ela vende a prazo e paga à vista. Crescer significa comprar mais estoque, contratar mais gente e esperar mais recebíveis, tudo antes de o dinheiro da venda chegar. É por isso que existe empresa que quebra crescendo, e isso não é força de expressão.

As duas medidas que quase ninguém olha

Existem dois números que deveriam ser os primeiros da lista de qualquer dono, e raramente estão.

Burn rate: quanto sai do caixa por mês, em média. Não é a despesa contábil, é a saída real de dinheiro.

Runway: quantos meses a empresa sobrevive com o dinheiro que tem hoje, se nada mudar.

A conta do runway é de dez segundos:

Runway = caixa disponível ÷ gasto médio mensal

Com R$ 300.000 em caixa e R$ 50.000 de saída por mês, o runway é de 6 meses. Esse é o tempo que a empresa tem para acertar o rumo.

O que fazer com esse número

O runway não é um número para guardar. Ele é um número que muda o que você tem permissão de decidir.

Abaixo de 3 meses: é situação de atenção máxima. Nenhuma contratação, nenhuma ferramenta nova, nenhum contrato anual. A prioridade da semana é caixa: acelerar recebimento, renegociar prazo com fornecedor, cortar o que não sustenta a operação.

Entre 3 e 6 meses: dá para operar, mas não dá para apostar. Decisões novas precisam se pagar dentro da janela.

Acima de 6 meses: existe fôlego para investir em crescimento com alguma tranquilidade, desde que o investimento tenha prazo de retorno menor que o runway.

E eu vejo o erro acontecer o tempo todo: empresa contratando, comprando ferramenta, assinando sistema e expandindo, sem saber quanto tempo de vida ainda tem. Antes de decidir o que a empresa vai fazer, você precisa saber quanto tempo ela ainda pode fazer.

Como montar isso na sua empresa

Não precisa de sistema caro. Precisa de três coisas.

1. Saber o caixa de hoje. Soma do que existe em conta e aplicações de liquidez imediata. Não conte recebível futuro aqui, ele entra no passo 3.

2. Calcular o burn. Média das saídas dos últimos três meses. Inclua tudo que sai: folha, fornecedor, imposto, parcela de empréstimo, pró-labore, ferramentas. Se você tem meses muito diferentes entre si, use a média mesmo.

3. Montar uma projeção simples de 90 dias. Uma linha por semana, com o que entra (recebíveis com data) e o que sai (contas com data). É a diferença entre saber que você tem seis meses e saber que existe um buraco na terceira semana do mês que vem.

Esse terceiro passo é o que separa quem tem controle de quem tem uma média. A média esconde os vales.

O princípio

Lucro você calcula. Caixa você tem ou não tem.

Lucro é o resultado de um cálculo que depende de critérios, competência e regime. Caixa é um fato verificável: ou o dinheiro está lá, ou não está. Decisão de contratação, investimento e retirada precisa passar pelos dois, e nessa ordem: primeiro se cabe no caixa, depois se faz sentido no resultado.

O último erro da série

Você pode ter todos esses números certos e ainda assim não sair do lugar. É o que acontece quando a empresa acumula indicadores sem escolher prioridade: trinta números no dashboard, reunião toda segunda, e nenhuma decisão saindo dali.

Esse é o fecho da série: Trinta indicadores e nenhuma prioridade.

Se quiser rever os anteriores, eles estão no índice.

Se algum desses números está no escuro na sua empresa, o problema raramente é esforço. É não ter quem olhe junto. No diagnóstico eu vejo os seus números com você e digo onde está o vazamento.

Fazer o diagnóstico
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