A empresa fechou o mês no lucro. Cinco dias depois, o dono precisou pedir dinheiro emprestado para pagar a folha.
Os dois números estavam certos. O relatório não mentiu e o extrato também não. O problema era acreditar que lucro significa dinheiro disponível, e tomar decisões importantes olhando para o indicador errado.
Duas perguntas diferentes
Antes de qualquer coisa, vale separar o que cada instrumento responde.
O resultado responde: a operação dá lucro? O caixa responde: eu consigo pagar o mês que vem?
São perguntas distintas, e uma pode estar respondida de forma ótima enquanto a outra está em situação crítica.
O que o EBITDA mostra e o que ele esconde
EBITDA é o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Ele é um bom indicador: mostra se a operação, em si, gera resultado, sem o ruído da estrutura de capital e das regras contábeis.
O que ele não mostra é dinheiro disponível. E existem três motivos bem concretos para isso:
| O que acontece | O efeito |
|---|---|
| Nota fiscal emitida | vira receita hoje, mesmo que o cliente pague em 60 dias |
| Parcela de empréstimo | sai do caixa e não passa pelo EBITDA (juros e principal ficam de fora) |
| Estoque comprado | é dinheiro que saiu agora, mas vira despesa só quando vender |
Some a isso o imposto, que também fica fora da conta e sai na data certa, e você tem a explicação inteira do caso do começo. A operação estava saudável. O calendário do dinheiro é que não estava.
Por que isso é tão comum em PME
Empresa grande tem tesouraria e projeção de fluxo. Empresa pequena costuma ter o extrato e a intuição do dono.
E existe um agravante: quanto mais a empresa cresce, mais o caixa aperta, se ela vende a prazo e paga à vista. Crescer significa comprar mais estoque, contratar mais gente e esperar mais recebíveis, tudo antes de o dinheiro da venda chegar. É por isso que existe empresa que quebra crescendo, e isso não é força de expressão.
As duas medidas que quase ninguém olha
Existem dois números que deveriam ser os primeiros da lista de qualquer dono, e raramente estão.
Burn rate: quanto sai do caixa por mês, em média. Não é a despesa contábil, é a saída real de dinheiro.
Runway: quantos meses a empresa sobrevive com o dinheiro que tem hoje, se nada mudar.
A conta do runway é de dez segundos:
Runway = caixa disponível ÷ gasto médio mensal
Com R$ 300.000 em caixa e R$ 50.000 de saída por mês, o runway é de 6 meses. Esse é o tempo que a empresa tem para acertar o rumo.
O que fazer com esse número
O runway não é um número para guardar. Ele é um número que muda o que você tem permissão de decidir.
Abaixo de 3 meses: é situação de atenção máxima. Nenhuma contratação, nenhuma ferramenta nova, nenhum contrato anual. A prioridade da semana é caixa: acelerar recebimento, renegociar prazo com fornecedor, cortar o que não sustenta a operação.
Entre 3 e 6 meses: dá para operar, mas não dá para apostar. Decisões novas precisam se pagar dentro da janela.
Acima de 6 meses: existe fôlego para investir em crescimento com alguma tranquilidade, desde que o investimento tenha prazo de retorno menor que o runway.
E eu vejo o erro acontecer o tempo todo: empresa contratando, comprando ferramenta, assinando sistema e expandindo, sem saber quanto tempo de vida ainda tem. Antes de decidir o que a empresa vai fazer, você precisa saber quanto tempo ela ainda pode fazer.
Como montar isso na sua empresa
Não precisa de sistema caro. Precisa de três coisas.
1. Saber o caixa de hoje. Soma do que existe em conta e aplicações de liquidez imediata. Não conte recebível futuro aqui, ele entra no passo 3.
2. Calcular o burn. Média das saídas dos últimos três meses. Inclua tudo que sai: folha, fornecedor, imposto, parcela de empréstimo, pró-labore, ferramentas. Se você tem meses muito diferentes entre si, use a média mesmo.
3. Montar uma projeção simples de 90 dias. Uma linha por semana, com o que entra (recebíveis com data) e o que sai (contas com data). É a diferença entre saber que você tem seis meses e saber que existe um buraco na terceira semana do mês que vem.
Esse terceiro passo é o que separa quem tem controle de quem tem uma média. A média esconde os vales.
O princípio
Lucro você calcula. Caixa você tem ou não tem.
Lucro é o resultado de um cálculo que depende de critérios, competência e regime. Caixa é um fato verificável: ou o dinheiro está lá, ou não está. Decisão de contratação, investimento e retirada precisa passar pelos dois, e nessa ordem: primeiro se cabe no caixa, depois se faz sentido no resultado.
O último erro da série
Você pode ter todos esses números certos e ainda assim não sair do lugar. É o que acontece quando a empresa acumula indicadores sem escolher prioridade: trinta números no dashboard, reunião toda segunda, e nenhuma decisão saindo dali.
Esse é o fecho da série: Trinta indicadores e nenhuma prioridade.
Se quiser rever os anteriores, eles estão no índice.